
Os romanos gostaram, os holandeses também e eu ainda mais. Não rima mas é verdade. Setúbal não perdeu -ainda- a beleza e luz que -tomara muitas cidades do velho continente- lhe assiste por natureza. O génio empreendedor luso de hoje talvez não seja o mesmo que, na era dos descobrimentos, permitia passar da ideia à boa prática, sem delongas.
É difícil imaginar o Sado na actual avenida Luísa Tody (actualmente de pantanas à pala de um 'POLIS' mais que atrasado), da mesma forma que não conseguimos visualizar uma frota de navios holandeses zarparem do porto de Setúbal carregados do melhor e mais puro sal europeu: só entre dez anos (1680-1690) foram sete mil e quinhentos que partiram para as terras baixas.
Os holandeses estiveram em força na cidade e algumas partes da zona velha guardam ainda características de casas de Amsterdão.
Multicultural nos séculos XVII e XVIII, Setúbal, captou também o interesse dos grandes banqueiros de Hamburgo; os Torlades, estavam entre eles. Carlos O'Neill (1760-1835) por casamento com Ana João Torlade, fiha de Henri Torlade, deu início a uma longa linhagem, de onde, nos nossos dias, ressalta o poeta Alexandre O'Neill.
A setecentista Quinta das Machadas, na foto lá em cima, pertença desta família, e na estrada do mesmo nome à saída de Setúbal pela serra, é daqueles elementos de arquitectura resistente ao avanço do inestético caixotão T3 'com vista para a serra e mar'. Quase entalada pelas urbanizações a sul, resiste estoicamente ao avanço do betão e dos muitos, muitos anos.
Hans Christian Andersen de lá levou a melhor recordação da sua estada neste país.
Parecia haver, há quatro anos, um projecto -não terá passado disso- para recuperação das grandes quintas históricas de Setúbal e baixa de Palmela: a das Machadas, a do Hilário, a da Arca de Água e outras tantas.
Não se espera que exista neste projecto parado o devaneio que assistiu D. João II, em 23 de Agosto de 1484, de fazer justiça pelas próprias mãos enviando o Duque de Viseu para o grande arquitecto do universo, ali mesmo no centro de Setúbal. Embora por vezes apeteça dar uns tabefes em burocratas de gravatinha e discurso de circunstância.
Espera-se sim, que o título de Notável Vila, atribuído em 1514 por foral de D.Manuel II -o mesmo que anos antes fora obrigado a beijar o anel real de D. João II junto do cadáver do Duque de Viseu- não se perca, no século XXI.
A cidade do Sado tem um património invejável e, muitas vezes, desconhecido de outros muitos ou, parafraseando, João Bénard da Costa "talvez seja das cidades de Portugal a que tem mais para contar e da qual menos se conta".