27 novembro 2008

1700: Lisboa vista por estrangeiros (3)

CASAS E ALOJAMENTOS

"[...]A habitação lisboeta é por muitos considerada suja, além de ser mal construída e incómoda. O piolhos, as pulgas e outros insectos de toda a espécie tornam os dias insuportáveis, sendo certo que a ligeireza do tecto e das paredes não põem os habitantes ao abrigo do rigor do Inverno e dos ventos do norte. (...) No palácio de Palhavã o mais notado foi a completa ausência de espelhos, de quadros, de doirados ou de qualquer decoração além dos pesados panejamentos. 'Bastava a vista destas mesas assim vestidas para nos fazer transpirar e não sou capaz de atinar com o demónio que tentou os Portugueses a inventar tão bolorenta moda, odiosa em toda a parte, mas particularmente em clima tão sufocante como este. Em Queluz não escapou nenhuma mesa de jogo, nem de jantar, e em muitos casos recorreu-se a velhos trajes de corte, é essa a minha convicção, para se fazerem tais atavios '', - William Beckford.

(...) Quanto aos novos edifícios construídos depois do terramoto, eram tão unidos e tão semelhantes que no conjunto pareciam um só palácio. As ruas que os separavam, bastante largas e direitas, tinham dísticos de mármore e todas as casas eram providas de cómodos e altos andares (alguns chegavam a oito) 'Têm todos vidraças e, em certos pavimentos, varandas, onde as mulheres passam o tempo a ver quem passa. Em algumas ruas secundárias, onde residem os pobres, vêem-se muitas janelas com vidros quebrados, os quais não raras vezes ficam assim eternamente. As belas grades de ferro que cercam as sacadas servem para pendurar a roupa branca de toda a família.'

(...) no interior das casas, a iluminação fazia-se ainda à luz das velas e mesmo, como no palácio da Ajuda, mediante grande número de tochas de cera, metidas dentro de lanternas. Enquanto isso, já a burguesia inglesa residente na capital dispunha de potentes candeeiros a gás que trouxera de Inglaterra. (...)

(...) As nossas estalagens causavam péssima impressão a todo o viajante nacional ou estrangeiro, entre outras razões por serem insuportavelmente sujas e cheias de bicharia. Procurá-las era verdadeiro suicídio, referia em 1752 o Abade de Montgon (...) [Carl Israel]Ruders, no princípio do século XIX refere-se-lhes [às estalagens de Mafra] como
'possuidoras de aposentos pequenos e miseráveis chiqueiros [onde] não havia nem boa comida, nem boas camas' a tal ponto que passou a noite sem se poder despir. E não deixa de salientar, em tom cómico-satírico: ' a única coisa atestando que nos achávamos num sítio célebre, era a carestia de vida'.

(...) Em Lisboa, no dizer de Carrère, existiam apenas duas hospedarias acolhedoras, a Piemontesa e a da Calçada da Estrela, onde os alojamentos eram mais ou menos decentes. Duma maneira geral os aposentos que um forasteiro podia então alugar na cidade eram tão maus como os que se encontravam a caminho da capital. Era necessário mobilá-los para os poder habitar, ou então decidir-se
' a sofrer tudo quanto a porcaria tem de insuportável'. Os quartos e as camas existentes eram péssimos e a comida tão mal cozinhada 'que faz mister o apetite de um botânico para a poder tragar'.
Na realidade, tudo quanto fosse comunicação e rede de transportes, higiene pública ou privada, parece ter sido alvo de críticas e até estranheza por parte destes homens [estrangeiros]. Seria Lisboa tão diferente das grandes cidades europeias? [...]"

in 'Lisboa setecencista vista por estrangeiros' ISBN 972-24-0991-3

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