
[...]Logo a comida constituia para elle um real desgosto. A cada instante em cartas, em conversas, se lastíma de não poder conseguir «um cozido vernaculo!»―«Onde estão (exclama elle, algures) os pratos veneraveis do Portugal portuguez, o pato com macarrão do seculo XVIII, a almondega indigesta e divina do tempo das descobertas, ou essa maravilhosa cabidella de frango, petisco dilecto de D. João IV, de que os fidalgos inglezes que vieram ao reino buscar a noiva de Carlos II levaram para Londres a surprehendente noticia? Tudo estragado![...]Só uma occasião, n'esta especialidade consideravel, o vi plenamente satisfeito. Foi n'uma taverna da Mouraria (onde eu o levára), diante d'um prato complicado e profundo de bacalhau, pimentos e grão de bico. Para o gozar com coherencia Fradique despiu a sobrecasaca. E como um de nós lançára casualmente o nome de Renan, ao atacarmos o piteu sem igual, Fradique protestou com paixão: ―Nada de idéas! Deixem-me saborear esta bacalhoada, em perfeita innocencia de espirito, como no tempo do Senhor D. João V, antes da Democracia e da Critica! [...]
in 'A correspondência de Fradique Mendes'- José Maria Eça de Queiróz
Exacto: nada de ideias e deixem-me ir fazer ali umas belas migas de couve-flor, esse espécimen importado lá da Anatólia nos idos de 1500, branca e não roxa -que também as há- nem laranja como as cenouras que só tomaram essa cor genéticamente modificada para agradar ao holandês Guilherme I de Orange -estão a ver?- mais ou menos na altura em que a couve rebolava por aqui.
E com este momento de boião cultural findo, vou ali à copa.
E com este momento de boião cultural findo, vou ali à copa.
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