18 janeiro 2010

assombrações


A quantidade de locais ditos 'assombrados' neste quintal lusitano é obra. Literalmente.
Normalmente estes assombros instalam-se em obra feita: casas, casarões, palácios e palacetes. Uma das mais conhecidas, é a celébre ruína (não tem outro nome actualmente) de um antigo dancing-casa de chá-restaurante às vezes, ali no terminar da Marginal de Cascais (para quem vem de lá) e enfiadura dos acessos às auto-estradas, mais concretamente no lugar da Quinta da Boa Viagem. Diz-se que n-a-d-a por lá vinga. Deverá ser verdade porque há décadas que está imutável, mas cuidai-vos porque o 'exorcista Isaltino' está atento.
Nesse eixo da Marginal outras existem, como de resto, dá conta um artigo publicado há uns meses no 'Expresso'. Mas bem mais afastado fica o enorme e desactivado edifício do Sanatório dos Caminhos de Ferro, junto às Penhas da Saúde, num local de nome atractivo: Porta dos Hermínios.
Tão actrativo quanto o preço simbólico pelo qual foi vendido, nos finais dos anos '90, pela Turistrela à antiga Enatur: 1$00. Com contra-partidas, claro.
O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita, diz a voz do povo. O enorme e bonito edifício projectado por Cottinelli Telmo nos anos 20 a pedido dos Caminhos de Ferro para ali tratar dos seus funcionários afectados pela tuberculose, levou quase uma década a construir e mesmo depois de pronto, outro tanto para abrir portas. Portas essas que haviam de dividir as classes sociais do tipo A1/B e C pequenino. Em 1969, o último a fechar a porta apagou a luz.
Voltaram a tocar o interruptor com as gentes que chegavam da descolonização africana e em meados de '80 ficou de novo ao abandono.
Num Sanatório, nem todas as estórias são boas e as que não são, servem para alimentar o imaginário da assombração.
Na verdade, basta estar-se influenciado pela própria ambiência do local, algo sinistro, na altura que por lá passei de raspão: um fim de ano, precisamente no final dos anos oitenta. Tarde escura de invernia e trovoada q.b. Recordo-me bem, justamente por não ter gostado. E também porque o carro não voltou a pegar. E também porque foi uma carga de trabalhos conseguir uma boleia para a Covilhã e outra aventura para arranjar um reboque. O mecânico, qual cirurgião em dia de urgência, fez o mesmo que eu faço: abre o capot, hummm, fecha e espera que avaria passe. Não passou. Alça o bólide para cima da garupa do camionete e aí vamos nós de volta ao burgo, no meio da tormenta que caía desabrida. Para que não fique encavalitado, decide ele retirá-lo do seis rodas 'Onde são as luzes? 'pergunta-me. 'segundo botão à esquerda, mas só ligam com a chave'- digo-lhe. Milagre: ele ronca.
Caprichos mecânicos, obviamente. Mas por via das dúvidas, quando me dizem que está projectada uma pousada para aquele local, não sei porquê, não quero nem ouvir falar.

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