07 fevereiro 2009

1700: Lisboa vista por estrangeiros (8)


[...] Na opinião de todos os estrangeiros (...) frequentes vezes se era abordado na rua por pessoas bem vestidas, cavaleiros e frades, tanto brancos como pretos, pedido esmola.
Na opinião de Beckford é '
graças a esta mal compreendida caridade que centenas de corpulentos indíviduos tratam de aprender a servir-se de muletas, em vez de aprender a servirem-se de um mosquete, instruíndo-se na arte de manufacturar feridas , úlceras e cabeças sarnentas. Porque todos os malandros da província podem entrar na cidade sem obstáculo, homens e mulheres de todas as idades exercem essa profissão desde o momento em que contraem o hábito. As ruas são um verdadeiro formigueiro desses repugnantes mendigos de ambos os sexos. É-se assaltado por eles nas praças, nas ruas, nas próprias casas.' (...)

[...]Ruders tem uma visão muito própria de Pina Manique o qual, tudo parece indicar, considera que o seu cargo consiste primordialmente em prender gente, com ou sem culpa formada. Assim, '
a sua consciência fica tranquila, porque, entre tantos, um ou outro ladrão sempre foi punido. (...) Os criminosos são agora justiçados nos sítios onde cometeram os crimes, a forca funciona com rapidez e a crueldade está presente quando os cadáveres são cortados aos pedaços, para servir de exemplo; as cabeças são cortadas e espetadas em postes erguidos nos lugares onde os maiores crimes foram praticados (...) Os deliquentes costumam ser conduzidos ao lugar do suplício com grande solenidade. Soldados abrem e fecham o préstito, no qual tomar parte muitos padres, cavaleiros das Ordens e outras pessoas, com tochas e crucifixo. Figura nele, também, um juíz a cavalo, de cabeça nua e cabelos soltos, vestido com uma beca negra e empunhando também uma tocha, de entre as maiores. Os carrascos, que são sempre muitos, pelo menos mais do que um, seguem o criminoso, preso com algemas.
Como ele, os primeiros também outrora mataram gente, mas foram perdoados com a condição de se prestarem, sempre que for preciso, a enforcar ou a decapitar os seus iguais. Conservam-se sempre presos. Para eles uma execução é uma espécie de festa, saem à rua, recebem 960 réis em espécies e uma galinha cada um para o jantar. Sempre que a procissão passa diante de uma igreja ou de uma capela, o deliquente faz a sua oração
.'[...]

in 'Lisboa setecencista vista por estrangeiros' ISBN 972-24-0991-3

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