01 dezembro 2008

Actual: 'A causa das coisas'


MEC, ou por extenso, Miguel Esteves Cardoso, foi para mim, referência literária e, por extensão, também jornalística, nos anos '80. Já aqui coloquei um post sobre ele, e em particular, sobre esta obra de referência portuga que se chama justamente 'A causa das coisas'. Crónicas do autor escritas para os semanários 'Expresso' e 'Independente' e passadas a livro, já lá vão mais de vinte anos, continua hoje em dia, nos seus curiosos e jocosamente sérios textos, absolutamente actual.
Vejamos um excerto:

"A ideia de ninguém ter razão (haja ou não haja pão) é portuguesíssima. Sobre qualquer assunto, Portugal garante-nos sempre pelo menos dez milhões de razões, cada uma com a sua diferençazinha, cada uma com a sua insolenciazeca do "eu cá é que sei".
Não há neste abençoado território um único sujeito, seja eu ou ele cego, surdo e mudo, que não reclame a sua inobjectivável subjectividade. Lá diz o raio do povo, por tratar-se da única coisa em que o povo todo está de acordo, «Cada cabeça, cada sentença». Basta fazer-se uma reunião ou um júri, um governo ou uma comissão, para assistir-se ao milagre da multiplicação das opiniões.
"

“Entre as afecções de boca dos portugueses que nem a pasta medicinal Couto pode curar, nenhuma há tão generalizada e galopante como a Portugalite. A Portugalite é uma inflamação nervosa que consiste em estar sempre a dizer mal de Portugal. É altamente contagiosa (transmite-se pela saliva) e até hoje não se descobriu cura.

A Portugalite é contraída por cada português logo que entra em contacto com Portugal. É uma doença não tanto venérea como ‘venal’. Para compreendê-la é necessário estudar a relação de cada português com Portugal. Esta relação é semelhante a uma outra que já é clássica na literatura. Suponhamos então que Portugal é fundamentalmente uma meretriz, mas que cada português está apaixonado por ela. Está sempre a dizer mal dela, o que é compreensível porque ela o trata extremamente mal."


Uma boa prenda, portanto. 'Vintage' se se quiser.

Créditos: excerto texto via citador.pt

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