09 setembro 2008

Oliveirinha da serra


O homem, na capa da 'Time' de 22 de Julho de 1946, ao lado da maçã bichosa (nada de associações) mas bonita por fora (como normalmente acontece) devia ter partilhado essa edição com a sua 'primeira-dama' que o não sendo, comportava-se como tal: a Dona Maria. A mulher que efectivamente governava o interior de S.Bento, destruía telexes confidenciais, tinha sinais codificados para com o pessoal interno, sinais esses que a polícia política nunca deu por eles e que ao mesmo tempo geria um galinheiro com meio milhar de galináceos e com os ovinhos da produção caseira, fazia o tal 'arroz de ovos' (como seria isto?) que ele [Salazar] tanto gostava enquanto despachava meia dúzia de 'incómodos' para o Aljube.
A 'primeira dama do Estado Novo' daria um filme, tanto ou mais que o seu real protagonista.

[...]A - E que pessoa era a governanta de Salazar?
FD - Má como as cobras, agreste com todos, até com Salazar. Ralhava com ele porque não comia o que devia, não descansava o suficiente. Dona Maria adorava a conversa, era uma tagarela. Ia à praça e falava com toda a gente. Levava Portugal até Salazar [...]

Fernando Dacosta respondia assim numa entrevista à Soc.Portuguesa de Autores. É dele um livro agora revisto e aumentado desde a sua saída inicial em 1997: ' Máscaras de Salazar'. Uma excelente obra baseada em recolha de vários depoimentos à época e fora dela, e, efectivamente, fundamental para o conhecimento de um passado recente, quer para aqueles que viveram parte desse período (como eu) como para aqueles que só por cá apareceram bem depois.
Até porque, na opinião de Dacosta:

[...]A - O neo-fascismo já está aí ou é uma ameaça?
FD - Está aí, suportado por dois ou três pensamentos únicos: a manipulação, a concentração, a arrogância do poder económico, a demagogia delirante. A uma ditadura ideológica que nos formou ou deformou e contra a qual combatemos até ao 25 de Abril de 1974, sucedeu uma ditadura do mercado. Entre as duas venha o diabo e escolha.

A - Mas ainda estamos longe da ditadura salazarista...
FD - Estamos longe? Na ditadura éramos controlados pelo silêncio e pela repressão. Nesta democracia controlam-nos pelo chinfrim e pela sedução. O poder saído do 25 de Abril não se europeizou, africanizou-se. Os seus detentores têm o comportamento dos ministros de certos países de África. Os sucessivos governos não perceberam que é preciso dar um sentido à vida das pessoas
.[...]

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