
O parque fechado, na saída da Vila, tem o nome do Regente Florestal que em 1904 ali foi colocado e pela serra se bateu, nomeadamente na defesa da conservação da flora e fauna residente, até porque os últimos exemplares da cabra-montesa tinham sido vistos uma década apenas atrás, e o urso, bom, esse, já não aparecia há quase cem anos. Tude Martins de Sousa, ficou pouco tempo nas serranias até porque nessa época, a 'licenciatura' de Regente Agrícola dava pano para mangas, mas o tempo que por lá ficou, rezam as crónicas, terá sido produtivo.
Eu demoraria 73 anos a conhecer o Gerêz(s) em alguma da sua profundidade. Cheguei num dia quente de Julho, de mochila às costas, depois de uma viagem de Lisboa a Braga em pé, num daqueles autocarros que partiam ora do Campo das Cebolas ora em frente à estação Sul e Sueste, em Lisboa, normalmen
te por volta da meia-noite. Não me enganei quando disse 'em pé'. Lembro-me de ter revezado com um amigo meu ora o degrau da saída da porta traseira, ora o banco do 'revisor' (aquele desdobrável colado ao último banco perto da dita porta) contrariando todas as normas que atribuem estrelinhas à segurança passiva e activa nos veículos.
De resto, ainda uma outra altura, eu faria de novo essa aventura de longo-curso em pé. Tudo para se chegar a Braga às 6h da manhã e conseguir apanhar o primeiro autocarro da 'Empresa Hoteleira do Gerês' para a Vila.
Mas nessa primeira vez, em 1977, Braga estava em primeiro lugar e o apanhar do autocarro seria justamente o último acontecimento.
Desembarquei num Gerês deserto na rua principal e com um motorista apressado de morte. Percebi(emos) porquê: no Hotel Universal -muito diferente do que é hoje- uma 'esplanada' improvisada à tardinha e apinhada de povo, deleitava-se a olhar para o pequeno ecrã que transmitia a primeira telenovela 'Gabriela, cravo e canela'. Não havia como chamar a atenção, por isso, a 'ração de combate' seria horas mais tarde, uns bons Kms acima. Muito acima, mesmo: mata de Albergaria, 10Kms a norte. Feitos a pé, note-se.
Nessa altura, o Parque Nacional da Peneda-Gerês tinha meia dúzia de anos e como local de campismo mais ou menos ordenado existiam dois: um mais perto da vila semi-privado e outro puro e duro em Albergaria. De longe mais bonito que o primeiro, com 'piscinas naturais' e 'frigoríficos' ecológicos: pequenos buracos sob rochas com portinhola de madeira, onde a amplitude térmica ajudava a conservar fresquinho um queijo ou uma manteiga, ou até umas célebres fanecas que levaram 2 horas a fritar numa lamparina a álcool...
Enfim, tudo tinha a sua piada.
Travar contacto com pastores não foi difícil e graças a eles se encurtava, na descida para a vila, a dezena de Kms que separavam o acampamento da 'civilização', a corta-mato, pela floresta. Impraticável no regresso à noite sem qualquer luz que não fosse uma ou outra lanterna.
Conheci Carris da Minas, a exploração de volfrâmio, relativamente perto da fronteira de Portela do Homem, ainda com os seus edifícios bem conservados, até porque a exploração tinha cessado há poucos anos. Hoje em dia é um amontoado de ruínas à espera de alguma coisa, penso eu, que gosto de pensar coisas boas.
Durante alguns anos, Gerêz ao norte e Lagos no extremo sul marcavam grande parte das férias. Ficou muito por conhecer, a pé, a cavalo ou mesmo de jipe (e já la ia ficando) por toda aquela sucessão de montanhas e onde os vestígios glaciares na Peneda, junto ao rio Vez, são ainda visíveis, mas, chega esta altura e dá-me a saudade, embora já não fosse capaz de fazer uma aventura pedestre dessa violência.
Créditos: imagem obra 'Serra do Gerêz- Tude de Sousa' via in-libris.pt
Eu demoraria 73 anos a conhecer o Gerêz(s) em alguma da sua profundidade. Cheguei num dia quente de Julho, de mochila às costas, depois de uma viagem de Lisboa a Braga em pé, num daqueles autocarros que partiam ora do Campo das Cebolas ora em frente à estação Sul e Sueste, em Lisboa, normalmen
te por volta da meia-noite. Não me enganei quando disse 'em pé'. Lembro-me de ter revezado com um amigo meu ora o degrau da saída da porta traseira, ora o banco do 'revisor' (aquele desdobrável colado ao último banco perto da dita porta) contrariando todas as normas que atribuem estrelinhas à segurança passiva e activa nos veículos.De resto, ainda uma outra altura, eu faria de novo essa aventura de longo-curso em pé. Tudo para se chegar a Braga às 6h da manhã e conseguir apanhar o primeiro autocarro da 'Empresa Hoteleira do Gerês' para a Vila.
Mas nessa primeira vez, em 1977, Braga estava em primeiro lugar e o apanhar do autocarro seria justamente o último acontecimento.
Desembarquei num Gerês deserto na rua principal e com um motorista apressado de morte. Percebi(emos) porquê: no Hotel Universal -muito diferente do que é hoje- uma 'esplanada' improvisada à tardinha e apinhada de povo, deleitava-se a olhar para o pequeno ecrã que transmitia a primeira telenovela 'Gabriela, cravo e canela'. Não havia como chamar a atenção, por isso, a 'ração de combate' seria horas mais tarde, uns bons Kms acima. Muito acima, mesmo: mata de Albergaria, 10Kms a norte. Feitos a pé, note-se.
Nessa altura, o Parque Nacional da Peneda-Gerês tinha meia dúzia de anos e como local de campismo mais ou menos ordenado existiam dois: um mais perto da vila semi-privado e outro puro e duro em Albergaria. De longe mais bonito que o primeiro, com 'piscinas naturais' e 'frigoríficos' ecológicos: pequenos buracos sob rochas com portinhola de madeira, onde a amplitude térmica ajudava a conservar fresquinho um queijo ou uma manteiga, ou até umas célebres fanecas que levaram 2 horas a fritar numa lamparina a álcool...
Enfim, tudo tinha a sua piada.
Travar contacto com pastores não foi difícil e graças a eles se encurtava, na descida para a vila, a dezena de Kms que separavam o acampamento da 'civilização', a corta-mato, pela floresta. Impraticável no regresso à noite sem qualquer luz que não fosse uma ou outra lanterna.
Conheci Carris da Minas, a exploração de volfrâmio, relativamente perto da fronteira de Portela do Homem, ainda com os seus edifícios bem conservados, até porque a exploração tinha cessado há poucos anos. Hoje em dia é um amontoado de ruínas à espera de alguma coisa, penso eu, que gosto de pensar coisas boas.
Durante alguns anos, Gerêz ao norte e Lagos no extremo sul marcavam grande parte das férias. Ficou muito por conhecer, a pé, a cavalo ou mesmo de jipe (e já la ia ficando) por toda aquela sucessão de montanhas e onde os vestígios glaciares na Peneda, junto ao rio Vez, são ainda visíveis, mas, chega esta altura e dá-me a saudade, embora já não fosse capaz de fazer uma aventura pedestre dessa violência.
Créditos: imagem obra 'Serra do Gerêz- Tude de Sousa' via in-libris.pt
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